terça-feira, 23 de abril de 2019

Tratamentos que protegem os rins do paciente com diabetes tipo 2 - o que há de novo

O diabetes mellitus pode levar a diversas complicações. Entre as mais temidas está a doença renal crônica. Atualmente, a maioria dos pacientes em programas de diálise acabou nessa situação por conta do diabetes.
Depois de quase duas décadas sem grandes novidades, uma nova classe de medicamentos antidiabéticos começa a mostrar efeitos positivos na proteção renal: são os inibidores da SGLT2.


O primeiro grande estudo desenhado para avaliar especificamente o efeito de um inibidor da SGLT2 em pacientes diabéticos com alto risco de perda de função renal foi publicado em abril de 2019 no New England Journal of Medicine: o CREDENCE Trial. Para ser exato, 4401 indivíduos com diagnóstico de diabetes tipo 2 e disfunção renal (taxa de filtração glomerular entre 30 e 90 mL/min e relação albuminúria/creatininúria entre 300 e 5000 mg/g) foram sorteados para receber canagliflozina 100 mg (inibidor do SGLT2) ou placebo (comprimido sem efeito). Após cerca 2,62 anos, o estudo foi interrompido, pois o grupo recebendo o tratamento ativo estava tendo benefício considerado maior que o grupo controle. O risco de desfechos renais adversos (doença renal terminal, elevação de duas vezes na creatinina ou morte por causas renais) foi 34 por cento menor nos pacientes que usaram a canagliflozina. Foi preciso tratar 28 pacientes por 2 anos e meio para prevenir uma complicação renal grave. Além disso, houve menor incidência de complicações cardiovasculares (infarto do miocárdio, acidente vascular encefálico e, especialmente, internação por insuficiência cardíaca) com perfil de efeitos adversos considerado aceitável.
Os achados do estudo CREDENCE, de fato, são animadores. No entanto algumas ressalvas merecem ser feitas.
1- estudos interrompidos antes do tempo tendem a superestimar os achados benéficos. Existe possibilidade do medicamento não ser tão bom quanto parece.
2- a população estudada tinha alto risco para problemas renais. Logo, os achados não devem ser extrapolados para pacientes com baixo risco, especialmente com níveis menores de albuminúria.
3- do ponto de vista populacional, a estratégia merece ser avaliada quanto seu custo-efetividade, já que o medicamento ainda é caro.
Em resumo, o arsenal terapêutico contra o diabetes está ganhando uma nova arma muito útil especialmente para os pacientes que já apresentam danos nos rins.

Referência: 
1- Perkovic V et al. Canagliflozin and Renal Outcomes in Type 2 Diabetes and Nephropathy. NEJM.

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
Doutor e Mestre em Endocrinologia - UFRGS
CREMERS 30.576 - RQE 22.991

domingo, 24 de março de 2019

Tratamento do diabetes - melhor com o especialista

Grande parte dos pacientes com diabetes mellitus não recebe tratamento apropriado. Segundo a American Diabetes Association (ADA), são considerados indicadores de qualidade da assistência:
- proporção de pacientes com bom controle glicêmico (hemoglobina glicada abaixo de 8 ou 10 por cento)
- proporção de pacientes com adequado controle da pressão arterial
- avaliação para complicações renais anual
- avaliação do perfil lipídico (colesterol e triglicerídeos) anual
- aconselhamento quanto ao tabagismo
- avaliação da adesão ao adequado controle da glicemia capilar (testes de ponta de dedo)
- satisfação do paciente
Em outras palavras, na lista acima, temos o mínimo que um paciente com diabetes deveria receber de tratamento. Infelizmente, não é o que se observa na prática.


Existem diversas razões para a grande discrepância entre o que deveria ser feito e o que de fato é...
- O sistema de saúde e mesmo a formação médica são moldados para responder rapidamente a problemas agudos, mas deixam a desejar no manejo de doenças crônicas: caso do diabetes. 
- Alguns profissionais deixam de fazer ajustes no tratamento frente a alterações clinicamente significativas no quadro do paciente - é a "inércia terapêutica". Contribuem para isso: desconhecimento ou pouca percepção das metas terapêuticas, relutância em tratar condições assintomáticas, preocupação do paciente com a quantidade de remédios ou seus efeitos adversos, consultas com tempo reduzido e priorização no tratamento de queixas agudas frente ao manejo dos fatores de risco. Em um estudo realizado na Suíça, apenas 2/3 dos pacientes diabéticos com controle glicêmico ruim (hemoglobina glicada acima de 8 por cento) tiveram seu tratamento ajustado dentro de um período de 18 meses.
- O acesso a sistemas organizados de tratamento ainda é precário. Pacientes com diabetes que acompanham com equipes especializadas tendem a ser melhor controlados.
E aqui chegamos ao ponto!
Apesar da maioria (até 90 por cento) dos pacientes diabéticos do tipo 2 não fazerem seu acompanhamento com endocrinologistas, diversos estudos apontam para melhores resultados quando um especialista ou equipe coordenada por especialista em diabetes é responsável pelo manejo. Nos casos mais complicados ou quando há necessidade do uso de insulina, isto é ainda mais perceptível.
Especialistas em diabetes preocupam-se mais com os indicadores de qualidade da assistência (exame de fundo de olho, exame dos pés, dosagem da hemoglobina glicada, rastreamento para doença renal, avaliação dos níveis de colesterol e triglicerídeos, vacinação...), além de ajustarem o tratamento mais rapidamente quando há necessidade. Em um estudo, 73 por cento dos pacientes acompanhados por endocrinologistas preenchiam completamente os indicadores de qualidade de assistência. Já os acompanhados por não especialistas, apenas 52 por cento.
Existem muitas pessoas diabéticas no Brasil - cerca de uma em cada dez! Se é o seu caso, procure, sempre que possível, por médicos endocrinologistas ou serviços especializados. A qualidade do atendimento prestado faz muita diferença na sua qualidade de vida.

Referências:
1- Lutfiyya MN, McCullough JE, Mitchell L, Dean LS, Lipsky MS. Adequacy of diabetes care for older U.S. rural adults: a cross-sectional population based study using 2009 BRFSS data. BMC Public Health. 2011;11:940. Epub 2011 Dec 16. 
2- Wagner EH, Austin BT, Von Korff M. Organizing care for patients with chronic illness.    Milbank Q. 1996;74(4):511. 
3- Rodondi N, Peng T, Karter AJ, Bauer DC, Vittinghoff E, Tang S, Pettitt D, Kerr EA, Selby JV.  Therapy modifications in response to poorly controlled hypertension, dyslipidemia, and diabetes mellitus. Ann Intern Med. 2006;144(7):475. 
4- Pimouguet C, Le Goff M, Thiébaut R, Dartigues JF, Helmer C.  Effectiveness of disease-management programs for improving diabetes care: a meta-analysis. CMAJ. 2011 Feb;183(2):E115-27. Epub 2010 Dec 13. 
5- Verlato G, Muggeo M, Bonora E, Corbellini M, Bressan F, de Marco R. Attending the diabetes center is associated with increased 5-year survival probability of diabetic patients: the Verona Diabetes Study. Diabetes Care. 1996;19(3):211.
6- Ho M, Marger M, Beart J, Yip I, Shekelle P.  Is the quality of diabetes care better in a diabetes clinic or in a general medicine clinic? Diabetes Care. 1997;20(4):472. 

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
Doutor e Mestre em Endocrinologia - UFRGS
CREMERS 30.576 - RQE 22.991

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Causas e avaliação da ginecomastia - o crescimento das mamas em homens

Chamamos de ginecomastia o aumento do tecido glandular mamário em meninos e homens, algumas vezes associado a desconforto ou sensibilidade nos mamilos. Usualmente é resultado de desbalanço hormonal e tipicamente aparece durante a infância, adolescência ou meia idade. A ginecomastia deve ser diferenciada do aumento mamário causado por acúmulo de gordura, comumente visto em homens acima do peso. Frequentemente, o aumento do tecido mamário diminui por si só, mas existem tratamentos para casos graves ou persistentes. Quando a ginecomastia é causada por alguma doença, o tratamento do problema de saúde também leva à melhora da ginecomastia.
Até 70 por cento dos adolescentes podem desenvolver ginecomastia devido às mudanças hormonais que ocorrem durante a puberdade. Na meia idade, até 65 por cento dos homens são afetados.


Causas comuns de ginecomastia

Embora se pense nos androgênios (como a testosterona) como "hormônios masculinos" e nos estrogênios como "hormônios femininos", tanto homens quanto mulheres produzem ambos os tipos. Nos homens, os androgênios predominam, mas pequenas quantidades de estrogênio também estão presentes. A ginecomastia dá as caras quando há desbalanço, com aumento relativo dos estrogênios e redução relativa dos androgênios. Este tipo de mudança hormonal pode acontecer durante a puberdade, com o envelhecimento e também com o uso de certas substâncias.
As causas mais comuns de ginecomastia em adultos são:
- ginecomastia da puberdade que não apresentou resolução espontânea - 25 por cento.
- uso de medicamentos - 10 a 25 por cento.
- causa desconhecida - 25 por cento.

Puberdade - A ginecomastia da puberdade usualmente melhora sem necessidade de tratamento dentro de 6 meses à 2 anos. A faixa etária mais comumente acometida vai dos 13 aos 14 anos. Em cerca de 20 por cento do casos, o aumento das mamas persiste além dos 17 anos.

Medicamentos - Muitos medicamentos se associam com ginecomastia, incluindo:
- espironolactona: diurético usado no tratamento da insuficiência cardíaca e pressão alta.
- cetoconazol: antifúngico.
- cimetidina, ranitidina e bloqueadores do receptor H2: antiácidos.
- esteroides anabolizantes.
Quando a ginecomastia é causado por medicamentos, a suspensão ou substituição do tratamento pode ser necessária.

Fitoterápicos - produtos cosméticos (loções, sabonetes e xampus) com óleo de lavanda ou óleo de malaleuca (tea tree) contêm fitoestrógenos que podem interferir no equilíbrio hormonal masculino. A ginecomastia causada por esses produtos é reversível após sua suspensão. Derivados de soja, em quantidades moderadas, não costumam causar crescimento do tecido mamário em homens.

Tratamento para HIV/AIDS - homens tomando coquetel para tratamento do HIV/AIDS podem apresentar crescimento das mamas. Na maioria das vezes, o aumento mamário é causado por acúmulo de gordura - efeito adverso do tratamento. Em alguns casos, ginecomastia verdadeira também ocorre.

Causa desconhecida (idiopática) - nem sempre a causa da ginecomastia é identificada. Desequilíbrios hormonais com maior proporção de estrogênios para androgênios costumam ocorrer durante o processo de envelhecimento. Este mecanismo talvez explique a maioria dos casos de ginecomastia idiopática.

Avaliação diagnóstica

A ginecomastia não deve ser confundida com pseudoginecomastia (também chamada de lipomastia), comum em homens acima do peso devido ao acúmulo de gordura na região das mamas.
O médico endocrinologista lança mão do exame físico para diferenciar o que é tecido adiposo e o que é glândula mamária. Quando essa diferenciação é difícil, exames de imagem como a ecografia e a mamografia podem auxiliar. A avaliação dos testículos também é importante. Redução do tamanho ou nódulos podem indicar problemas mais graves.
Em alguns casos, onde a causa da ginecomastia não pode ser identificada apenas com a avaliação clínica (puberdade ou uso de medicamentos, por exemplo), as dosagens hormonais são necessárias. Testosterona, estradiol, LH e HCG direcionam a investigação para causas específicas. Exemplo: um usuário de anabolizantes terá níveis elevados de testosterona e de estradiol e reduzidos de LH e de HCG.

Referência:
1 - Braunstein GD, Anawalt BD. Patient education: Gynecomastia (breast enlargement in men) (Beyond the Basics). UpToDate.

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
Doutor e Mestre em Endocrinologia - UFRGS
CREMERS 30.576 - RQE 22.991

domingo, 6 de janeiro de 2019

Dieta da tireoide – dá pra engolir?

“Que teu alimento seja teu remédio”. Atire a primeira pedra quem nunca viu esta frase atribuída a Hipócrates sendo usada em uma rede social para justificar os mais variados tipos de dietas. É verdade que bons hábitos alimentares auxiliam bastante na prevenção e no tratamento de doenças. Obesidade, diabetes mellitus, hipertensão arterial e até mesmo o câncer estão entre elas. Talvez por isso, sempre que um paciente é diagnosticado com qualquer problema na tireoide, vem a pergunta: “O que eu devo comer ou deixar de comer para ajudar no tratamento?” Que orientações o endocrinologista costuma fazer quando recebe este tipo de questionamento?

Vegetais do gênero Brassica frequentemente levam a culpa por disfunções tireoidianas.
A tireoide usa iodo para produzir seus hormônios. De cara, já dá pra perceber que na deficiência deste micronutriente, a produção hormonal pode diminuir. Isto é, a baixa ingesta de iodo pode ser causa de hipotireoidismo.
Precisamos de uma alimentação que nos forneça 150 mcg de iodo todos os dias. Gestantes e mulheres amentando, precisam um pouco mais. A principal fonte de iodo alimentar é o sal de cozinha, seguido por frutos do mar e de alguns pães e cereais. No Brasil, toda dona de casa tem acesso ao sal iodado. Logo, para nós brasileiros, o hipotireoidismo por deficiência de iodo não é uma doença prevalente. Entre as poucas pessoas que apresentam maior risco de deficiência de iodo estão os veganos, especialmente se além da restrição de produtos de origem animal, também restringirem sal.
Se por um lado, a deficiência é um problema, o excesso é igualmente prejudicial à saúde. Em pessoas predispostas, o iodo a mais pode desencadear quadros tanto de hiper quanto de hipotireoidismo. Por isso, suplementos como o lugol ou o SSKI costumam fazer mais mal do quem bem à saúde.
E quanto a couve e a soja? Dá pra comer à vontade? Existe um grupo de substâncias conhecidas como goitrogênicas, isto é, com potencial de causar bócio (aumento da tireoide). Os exemplos alimentares mais comuns são os vegetais crucíferos (família da couve) e os produtos derivados da soja.
Os vegetais crucíferos, que pertencem ao gênero Brassica, incluem couve, brócolis, couve-flor, couve-de-bruxelas e repolho entre outros. São ricos em glicosinolatos, compostos que produzem sulforafano e isotiocianatos, substâncias com propriedades anticancerígenas. Porém, os glicosinolatos também incluem o metabólito tiocinato, que é capaz de inibir a síntese de hormônio tireoidiano. Ou seja, teoricamente, o consumo excessivo desses vegetais poderia causar hipotireoidismo.
Felizmente, na prática, o consumo de crucíferas precisa ser enorme para causar disfunção tireoidiana. Em um estudo, o consumo de 1 litro de suco de couve por dia por 7 dias diminuiu a captação de iodo em cerca de 2% sem efeito significativo nos níveis hormonais (2). Em um relato de caso, uma senhora chinesa de 88 anos, que consumiu cerca de 1,5 kg de acelga por dia por vários meses, acabou entrando em coma pelo hipotireoidismo (3). Exemplo extremo! O consumo moderado não tem impacto significativo no funcionamento da tireoide.
As isoflavonas, encontradas nos derivados de soja, podem inibir a atividade da enzima peroxidase tireoidiana, atrapalhando a síntese hormonal. Mais uma vez, teoricamente, a ingestão de grandes quantidades de derivados de soja poderia causar hipotireoidismo. Mas não é o que vemos na prática. Mesmo populações que consomem muita soja, como os asiáticos, não apresentam maior risco de hipotireoidismo (4).
Por fim, existem alguns estudos associando níveis baixos de micronutrientes (selênio, cobre, zinco e magnésio) a doenças autoimunes e ao câncer de tireoide. No entanto, até o momento, não existe evidência mostrando que a suplementação com estes minerais seja capaz de prevenir ou tratar doenças tireoidianas. Exceção para o uso do selênio na doença ocular leve associada a casos de hipertireoidismo (orbitopatia de Graves) (5).
Em resumo, frente à evidência atual, apesar de algumas substâncias e nutrientes terem alguma importância na fisiologia tireoidiana, não podemos afirmar que exista um padrão alimentar específico para prevenir ou tratar doenças da tireoide. Em situações muito específicas – gestante vegana, por exemplo –, ajustes na alimentação ou suplementação podem ter algum impacto, embora  não existam estudos robustos avaliando a custo-efetividade deste tipo de estratégia. Se você apresentou alteração em exames tireoidianos, antes de aderir à qualquer dieta ou fazer uso de suplementos, procure um bom endocrinologista. Felizmente, na maioria das vezes, o tratamento é simples e não exige modificação nos hábitos alimentares. 

Fontes:
1 - Leung AM. The Thyroid Diet: Is There Such a Thing? Medscape.
2 - Kim SSR, He X, Braverman LE, Narla R, Gupta PK, Leung AM. Letter to the Editor. Endocr Pract.  2017; 23(7):885-886.
3 - Chu M, Seltzer TF. Myxedema coma induced by ingestion of raw bok choy. N Engl J Med.  2010; 362(20):1945-6.
4 - Messina M, Redmond G. Effects of soy protein and soybean isoflavones on thyroid function in healthy adults and hypothyroid patients: a review of the relevant literature.
Thyroid.  2006; 16(3):249-58.
5 - Marcocci C, Kahaly GJ, Krassas GE, Bartalena L, Prummel M, Stahl M, Altea MA, Nardi M, Pitz S, Boboridis K, Sivelli P, von Arx G, Mourits MP, Baldeschi L, Bencivelli W, Wiersinga W. Selenium and the course of mild Graves' orbitopathy. N Engl J Med.  2011; 364(20):1920-31.

No vídeo, explico as principais diferenças entre HIPOTIREOIDISMO e HIPERTIREOIDISMO.



Existe DIETA DA TIREOIDE? Versão em vídeo deste texto.



Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista titulado pela SBEM
Doutor e Mestre em Endocrinologia pela UFRGS
CREMERS 30.576 - RQE 22.991

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Hipoglicemia em pacientes com diabetes mellitus - causas e sintomas

1- O que é hipoglicemia?
A hipoglicemia ocorre quando os níveis de glicose (açúcar) no sangue estão muito baixos. É comum em pessoas diabéticas que usam insulina e alguns tipos de comprimidos antidiabéticos - principalmente sulfonilureias.



2- O que causa hipoglicemias?
Baixos níveis de glicose acontecem quando o paciente com diabetes...
- usa muita insulina (ou outro antidiabético oral que estimule o pâncreas a secretar insulina).
- faz exercícios físicos vigorosos sem comer um lanche ou reduzir a dose de insulina.
- faz intervalos muito grandes entre uma refeição e outra.
- ingere muito álcool, embora mesmo o consumo moderado possa aumentar o risco de hipoglicemia em pacientes com diabetes tipo 1.

3- Quais os sintomas de hipoglicemia?
Os sintomas variam de pessoa para pessoa e podem mudar no decorrer do tempo. Nos primeiros estágios da hipoglicemia, predominam os sintomas adrenérgicos:
- suor frio
- tremor
- ansiedade
- sensação de fome
Se a hipoglicemia não for tratada, surgem os sintomas neuroglicopênicos, que são mais graves:
- dificuldade de caminhar
- fraqueza
- visão turva
- alterações no comportamento e na personalidade
- confusão
- perda da consciência
- convulsões
- coma


Sempre que possível, é importante documentar a hipoglicemia através do teste de glicemia capilar (ponta de dedo). Níveis abaixo de 60 mg/dL costumam ser considerados muito baixos.
Alguns pacientes podem apresentar sintomas em níveis mais elevados de glicose. Se o diabetes esteve previamente descompensado, com hiperglicemia crônica, os sintomas de hipoglicemia podem aparecer mesmo com a glicose na faixa de 100 mg/dL. Controlar melhor os níveis glicêmicos ajuda a "recalibrar" o ponto correto onde a sintomatologia deve ocorrer.

4- O que é hipoglicemia não percebida?
Uma hipoglicemia não percebida ocorre quando os sintomas adrenérgicos, que acontecem nos primeiros estágios de queda da glicose, não estão presentes. Como resultado, o paciente não consegue manejar o quadro antes dos sintomas mais graves aparecerem. A não percepção da hipoglicemia é frequente em pacientes com diabetes tipo 1 de longa data (mais de 5 a 10 anos de doença).
Tanto a hipoglicemia quanto a hipoglicemia não percebida são mais frequentes nos pacientes em terapia intensiva - tratamento usando múltiplas doses de insulina objetivando alcançar níveis glicêmicos o mais próximos possível da normalidade.
Pessoas que bebem grandes quantidades de álcool, que estão cansadas ou que usam beta-bloqueadores (medicamentos comuns no tratamento da hipertensão e de doenças cardíacas) podem não notar ou não reconhecer os sintomas do açúcar caindo no sangue.
A hipoglicemia não percebida também pode acontecer em pacientes diabéticos usando comprimidos (por exemplo, glibenclamida ou glimepirida), especialmente se forem idosos com doenças cardíacas ou renais.

5- O que é hipoglicemia noturna?
É a queda da glicemia que ocorre durante a madrugada. Pode interromper o sono, mas frequentemente não causa sintomas. A hipoglicemia noturna é uma forma de hipoglicemia não percebida. Ou seja, quem tem hipoglicemia noturna tem menos chance de ter sintomas que alertam da necessidade de tratamento. A hipoglicemia noturna pode ser difícil de diagnosticar e pode aumentar o risco de hipoglicemia não percebida nas próximas 48 a 72 horas após o episódio.

Num próximo texto, abordaremos a prevenção e o tratamento da hipoglicemia. Acompanhe!

Fonte:
1- McCulloch DK. Patient education: Hypoglycemia (low blood sugar) in diabetes mellitus (Beyond the Basics). UpToDate.

No vídeo abaixo, explico como o paciente diabético deve agir em caso de hipoglicemia.



Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista titulado pela SBEM
Doutor e Mestre em Endocrinologia pela UFRGS
CREMERS 30.576 - RQE 22.991

domingo, 18 de novembro de 2018

Qual a diferença entre DIET, LIGHT e ZERO?

Produtos DIET, LIGHT e ZERO costumam causar dúvidas na hora da escolha. Mas afinal, qual pode ajudar a emagrecer? E qual é mais indicado para quem é diabético?



Nos produtos DIET, um dos componentes nutricionais - açúcares, sódio, gorduras, proteínas, entre outros - é retirado ou substituído. Esta informação deve constar no rótulo. São indicados para pessoas que têm restrições alimentares ou não querem consumir algum nutriente específico. Exemplo: pacientes com diabetes que precisem restringir o consumo de açúcar. Um detalhe importante: DIET não é sinônimo de menos calórico! Chocolates e sorvetes dietéticos, por exemplo, podem ser mais calóricos do que o produto normal se o açúcar for substituído por gordura.
O que faz um produto ser LIGHT é a redução em pelo menos 25% de algum nutriente. Isso frequentemente também reduz o conteúdo energético, ou seja, o número de calorias. Logo, alimentos LIGHT podem ser indicados em dietas para emagrecer. No entanto, para que a redução de peso aconteça, deve-se consumir quantidade parecida ao do produto normal (não LIGHT).
Por fim, os produtos ZERO possuem exclusão total de algum ingrediente. Existem os “zero açúcar”, “zero gordura”, “zero sódio”, entre outros. Grande parte dos produtos ZERO são reduzidos em calorias e açúcares, podendo ser utilizados tanto por pacientes diabéticos quanto por quem deseja perder peso.
Uma vez que a leitura dos rótulos pode ser difícil, sempre vale consultar com o endocrinologista ou com o nutricionista no caso de dúvidas.

No vídeo, explico qual produto é melhor para emagrecer.


Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista titulado pela SBEM
Doutor e Mestre em Endocrinologia pela UFRGS
CREMERS 30.576 - RQE 22.991

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Uma breve introdução ao diabetes tipo 1

O diabetes mellitus tipo 1 (DM1) é uma doença crônica que surge quando o pâncreas deixa de produzir quantidade suficiente de insulina. A glicose, um tipo de açúcar que obtemos principalmente através da alimentação, precisa da insulina para conseguir entrar nas células do nosso organismo. Dentro da célula, a glicose poderá ser estocada ou usada imediatamente como fonte de energia. Quando falta insulina, sobra açúcar na corrente sanguínea. E estes níveis elevados trazem problemas à saúde.



O manejo do diabetes tipo 1 tem duas características: a necessidade de automonitorização dos níveis glicêmicos (testes de ponta de dedo ou através de monitorização contínua - CGM ou Libre) e o uso de insulina. O tratamento, quando bem executado, consegue diminuir a incidência de complicações.
Crianças e adultos jovens são acometidos com maior frequência, mas o DM1 pode dar as caras em qualquer idade. Mundialmente, de cada 100 pacientes diabéticos, entre 5 e 10 convivem com o diabetes tipo 1.
Receber o diagnóstico de diabetes mellitus tipo 1 pode ser uma experiência angustiante e assustadora. Por que a doença apareceu? Qual o impacto na minha saúde daqui para frente? Como vai afetar minha rotina? São dúvidas frequentes.
É comum certa instabilidade emocional nos primeiros meses após o diagnóstico. Paciente e família podem usar esse período para aprender o máximo possível sobre a doença e como incluir os devidos cuidados dentro da rotina (controle da glicemia capilar, consultas médicas, uso da insulina, alimentação, cuidado com os pés).
Além disso, é importante conversar com o médico endocrinologista sobre as opções terapêuticas disponíveis, incluindo o suporte psicossocial. Contato com grupos de pacientes, nutricionista, educador físico, enfermeiro, isto é, com pessoas com vivência e experiência no manejo da doença, também é muito válido.
Apesar dos riscos associados ao diabetes, a maioria das pessoas pode levar vidas ativas, comer e fazer o que sempre gostou. Diabetes não significa o fim dos bolos de aniversário! Com planejamento adequado, dá pra fazer quase qualquer coisa.

O que causa o diabetes tipo 1?

O DM1 usualmente aparece quando o sistema imunológico destrói as células produtoras de insulina (células beta) do pâncreas. Isto é chamado de resposta autoimune. A causa desta deste fenômeno ainda está sendo estudada.
O processo de destruição das células beta ocorre ao longo de vários meses ou anos. Nesta fase, não há sintomas de diabetes. A glicose alta e os sintomas associados (sede e urinar várias vezes ao dia) só aparece quando mais de 90 por cento das células produtoras de insulina foram perdidas.
O diabetes tipo 1 pode acometer tanto familiares de um paciente diabético quanto pessoas sem história da doença na família. Em ambos os casos, quem ficou diabético tinha um ou mais genes que o tornaram suscetível. Fatores ambientais e a exposição a certos vírus podem ter desencadeado a resposta autoimune.
Parentes próximos (filhos e irmãos) de um paciente com DM1 têm risco maior de desenvolver a doença quando comparados a pessoas sem história familiar (5 a 6 por cento versus 0,4 por cento, respectivamente). Testes genéticos e dosagem de anticorpos contra o pâncreas podem ajudar a estimar este risco, mas não são avaliados rotineiramente, estando disponíveis para participantes de pesquisa clínica.

Como é feito o diagnóstico do diabetes tipo 1?

O diagnóstico é feito através dos sintomas e de testes sanguíneos.
A maioria dos pacientes com DM1 tem sintomas de altos níveis de glicose no sangue (hiperglicemia). Entre eles:
- sede excessiva
- sensação de cansaço
- necessidade de urinar frequentemente
- perda de peso involuntária
- visão borrada
- fome excessiva
- infecções fúngicas ou urinárias recorrentes
- cicatrização lenta de feridas
Menos frequentemente, surgem sintomas de uma condição chamada de cetoacidose diabética. Além dos sintomas descritos acima, pacientes com cetoacidose podem apresentar náusea e vômitos, dor de barriga, respiração rápida, sensação de lentidão, dificuldade de atenção e, algumas vezes, até coma. A cetoacidose diabética é uma emergência médica e deve ser prontamente tratada.
Níveis de glicemia elevados (maiores ou iguais que 126 mg/dL em jejum ou 200 mg/dL após sobrecarga de glicose), na presença de sintomas, confirmam o diagnóstico. Se a sintomatologia não for clara, os exames deverão ser repetidos.

Quais as complicações do diabetes tipo 1?

Níveis de glicemia elevados podem causar problemas nos olhos (retinopatia), nos rins (nefropatia) e nos nervos (neuropatia) - as complicações microvasculares e neuropáticas. Para evitar estas complicações é importante seguir o tratamento corretamente e visitar o endocrinologista para exames regulares do fundo do olhos, dos pés e da função dos rins.
Os pacientes com diabetes tipo 1 também têm risco aumentado de doenças cardiovasculares, como ataque cardíaco, isquemias e mesmo morte. A redução deste risco passa por evitar o fumo, manter pressão arterial e colesterol bem controlados e a glicemia bem controlada (hemoglobina glicada 7% ou menos, especialmente no início da doença).

Em uma outra oportunidade, abordaremos de forma mais detalhada o tratamento do DM1 (cuidados com a alimentação, monitorização da glicemia e uso da insulina).

Fonte:
1- Weinstock RS. Patient education: Type 1 diabetes: Overview (Beyond the Basics). UpToDate.


No vídeo abaixo, explico a diferença entre diabetes tipo 1 e diabetes tipo 2.


Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Doutor e Mestre em Endocrinologia pela UFRGS
CREMERS 30.576 - RQE 22.991