domingo, 8 de julho de 2018

O transplante de fezes ainda não é um tratamento viável para o diabetes

No dia 6 de julho de 2018, o jornal Zero Hora publicou a reportagem O cocô pode salvar vidas: saiba o que é o transplante de fezes. Segundo o texto, “Porto Alegre sediou o primeiro transplante fecal da América Latina para o tratamento do diabetes”. A pessoa que se submeteu ao transplante, médico neurologista e professor universitário, disse que queria “provar a segurança do procedimento e demonstrar a dinâmica disso para que pudesse ser oferecido a pacientes de casos extremos”. Em outro trecho, o profissional disse que seu “perfil glicêmico melhorou significativamente nas primeiras horas” e que seu “sono nos dois últimos dias estava quase normal”. A maneira como o texto foi escrito, aliado ao grande entusiasmo do médico que se submeteu a experiência, pode gerar confusão no público leigo. A seguir esclarecemos alguns pontos sobre o uso do transplante de fezes para o tratamento do diabetes.

Imagem da reportagem de Zero Hora sobre transplante de fezes

1- Existem evidências de que o transplante do microbiota fecal possa ser usado para o tratamento do diabetes?
É verdade que existem estudos sobre a manipulação das bactérias que habitam nosso intestino possa ser alvo terapêutico em doenças metabólicas como o diabetes. No entanto, quase totalidade destas pesquisas são em modelos animais (ratos). Para o tratamento de doenças metabólicas, existem pouquíssimos estudos em humanos publicados até hoje. Um deles contou com apenas 18 participantes e teve apenas 6 semanas de duração. Pacientes obesos que receberam transplante fecal de indivíduos magros apresentaram melhor sensibilidade periférica a insulina comparados ao grupo controle. E só! O mesmo grupo de pesquisadores avaliou esta estratégia em 38 homens obesos, desta vez por 18 semanas. Aumentando o tempo de observação, percebeu-se que a melhora na sensibilidade à insulina foi apenas transitória, em outras palavras, o efeito do tratamento é fugaz. Estes achados podem ser considerados como geradores de hipóteses, isto é, precisam de estudos maiores para poder comprovar eficácia e benefício a longo prazo. Além disso, até o momentos, não há relatos de melhora na qualidade de vida ou melhora do sono. Outros achados importantes como prevenção de complicações típicas do diabetes como doença do fundo do olho, doença renal ou doenças do coração também não podem ser avaliados em estudos pequenos e de curta duração.

2- Como se prova segurança e eficácia de um tratamento?
Ao contrário do que a reportagem possa sugerir, o fato da técnica ser relativamente simples e ter dado certo em um único caso, não significa que o procedimento seja seguro ou eficaz. A maneira cientificamente correta de fazer esta avaliação é através de estudos randomizados em número suficientemente grande de pacientes seguidos por tempo suficientemente longo para poder avaliar se o tratamento de fato funciona e de fato não faz mal. Só comparando dois grupos - um exposto e outro não exposto ao tratamento – sorteados de maneira aleatória, conseguimos calcular de maneira apropriada se o efeito positivo de um tratamento é de fato real e não foi causado por outros motivos. No caso da reportagem, a melhora referida pelo médico poderia ter acontecidos pelo preparo do intestino, mudança na alimentação ou nas atividades diárias, ou por outro fator desconhecido e não aferido.

3- O transplante de fezes pode ser oferecido como opção terapêutica a “pacientes de casos extremos”?
Fora do ambiente de pesquisa devidamente regulado por um Comitê de Ética, o transplante fecal ainda NÃO é opção para o tratamento de doenças metabólicas. Oferecer procedimento experimental, isto é, sem comprovação científica robusta é no mínimo eticamente reprovável, já que pode confundir pessoas fragilizadas por uma doença crônica e induzi-las a se submeterem a tratamento sem garantia de eficácia e de segurança.

Referências:
1 - Vrieze A, Van Nood E, Holleman F, Salojärvi J, Kootte RS, Bartelsman JF, Dallinga-Thie GM, Ackermans MT, Serlie MJ, Oozeer R, Derrien M, Druesne A, Van Hylckama Vlieg JE, Bloks VW, Groen AK, Heilig HG, Zoetendal EG, Stroes ES, de Vos WM, Hoekstra JB, Nieuwdorp M. Transfer of intestinal microbiota from lean donors increases insulin sensitivity in individuals with metabolic syndrome. Gastroenterology. 2012 Oct;143(4):913-6.e7. doi: 10.1053/j.gastro.2012.06.031. Epub 2012 Jun 20.
2 - Kootte RS, Levin E, Salojärvi J, Smits LP, Hartstra AV, Udayappan SD, Hermes G, Bouter KE, Koopen AM, Holst JJ, Knop FK, Blaak EE, Zhao J, Smidt H, Harms AC, Hankemeijer T, Bergman JJGHM, Romijn HA, Schaap FG, Olde Damink SWM, Ackermans MT, Dallinga-Thie GM, Zoetendal E, de Vos WM, Serlie MJ, Stroes ESG, Groen AK, Nieuwdorp M. Improvement of Insulin Sensitivity after Lean Donor Feces in Metabolic Syndrome Is Driven by Baseline Intestinal Microbiota Composition. Cell Metab. 2017 Oct 3;26(4):611-619.e6. doi: 10.1016/j.cmet.2017.09.008.

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
CREMERS 30.576 - RQE 22.991

Dr. Rafael Selbach Scheffel
Médico Endocrinologista
CREMERS 30.011 - RQE 19.512

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Quais os tipos de insulinas e quando usá-las

Grande parte dos pacientes com diabetes mellitus necessitará usar insulina em algum momento. No diabetes tipo 1, o uso é necessário desde o início. No diabetes tipo 2, quando os comprimidos não são capazes de reduzir os níveis de glicose de forma satisfatória ou estão contraindicados, a aplicação da insulina também está indicada.
Existem diversos tipos de insulina, cada uma com perfil específico de uso. A seguir, as apresentações mais comuns disponíveis no Brasil.


Insulinas humanas

As insulinas humanas são produzidas em laboratório e apresentam composição idêntica à insulina secretada pelo pâncreas. Atualmente, são disponibilizadas dentro do Sistema Único de Saúde (SUS) através da Farmácia Popular com custo zero aos pacientes. São duas as insulinas humanas:

Insulina regular: apresenta início de ação rápido (30 minutos após a aplicação) e é usada para controlar a glicemia pós prandial, isto é, é aplicada antes das refeições para evitar a elevação da glicose causada pela alimentação. Geralmente é aplicada 3 vezes ao dia, cerca de 15 minutos antes das principais refeições (café da manhã, almoço e jantar). Pode ser misturada com a insulina NPH desde que seja aspirada antes na seringa e aplicada dentro de 15 minutos. É transparente.

Insulina NPH (neutral protamine hagedorn): é produzida através da mistura de protamina à solução de insulina regular. A protamina faz com que a insulina seja liberada mais lentamente após a injeção, sendo considerada de ação intermediária (início do efeito 2 horas depois da aplicação, com duração do efeito de até 18 horas). É utilizada para controlar a liberação de glicose pelo fígado (gliconeogênese hepática) e manter a glicemia basal em níveis apropriados. Em pacientes com diabetes tipos 1, geralmente é usada 3 vezes ao dia. Em paciente com diabetes tipo 2, é usado de uma a 3 vezes ao dia (antes do café, antes do almoço e às 22 horas). Tem aspecto leitoso e deve ser homogenizada antes da aplicação. Pode ser misturada com a insulina regular ou com as insulinas ultra-rápidas.

Análogos de insulina

Os análogos de insulina são produzidos através da modificação da molécula da insulina humana. Pequenas alterações na composição química também modificam o perfil farmacológico do hormônio. Em outras palavras, a insulina passa a funcionar de maneira mais rápida ou lenta que o habitual. Os análogos atualmente disponíveis no Brasil são:

Insulinas lispro (Humalog), aspart (Novorapid) e glulisina (Apidra): são consideradas insulinas ultra-rápidas. Iniciam o efeito cerca de 3 a 15 minutos após a injeção, com efeito máximo em 45 a 75 minutos. Assim como a insulina regular, são usadas para controlar a elevação da glicemia causada pelas refeições, logo, são aplicadas de 3 a 4 vezes ao dia. Pacientes com diabetes tipo 1 tendem a apresentar menos hipoglicemias ao usar este tipo de insulina e, quando indicado, podem solicitá-la via protocolo de medicamentos especiais, sem custos, dentro do Sistema Único de Saúde.

Insulina detemir (Levemir): assim como a NPH, é uma insulina de ação intermediária. Ou seja, é usada para controlar a glicemia basal e precisa ser aplicada pelo menos duas vezes ao dia. Quando comparada à NPH, está associada a menos episódios de hipoglicemias. Não pode ser misturada a outras insulinas na mesma aplicação.

Insulina glargina (Lantus, Basaglar e Toujeo): é considerada uma insulina de ação ultra-lenta. Tem duração do efeito de 20 a 24 horas, o que permite uma única aplicação ao dia na maioria dos casos para o controle da glicemia basal. Quando comparada à insulina NPH, se associa a menos episódios de hipoglicemia sintomática, especialmente durante à noite. Não pode ser misturada a outras insulinas na mesma aplicação. No Rio Grande do Sul, pacientes com diabetes tipo 1, quando indicado, podem receber a insulina glargina via protocolo de medicamentos especiais, sem custos, dentro do Sistema Único de Saúde.

Insulina degludeca (Tresiba): é uma insulina ultra-lenta com duração do efeito de até 40 horas, o que permite aplicação em dose única diária para o controle da glicemia basal com a vantagem de flexibilidade no horário - não precisa ser feita exatamente na mesma hora todos os dias. Quando comparada à insulina glargina, se associa com menos episódios de hipoglicemia. Apresenta a desvantagem do alto custo. Pode ser misturada a outras insulinas na mesma aplicação.


Pacientes com diabetes tipo 1 costumam ser manejados com um esquema que associa uma insulina de ação intermediária ou ultra-lenta e uma insulina de ação rápida ou ultra-rápida (esquema basal bolus). Já os pacientes diabéticos tipo 2, dependendo do perfil clínico, podem ser manejados apenas com insulina de ação intermediária ou ultra-lenta, esquema basal bolus (como no diabetes tipo 1) ou mesmo apenas com insulina rápida ou ultra-rápida (bem menos utilizado). Os diferentes esquemas são escolhidos para se adaptar melhor às peculiaridades e preferências de cada paciente.

Fonte: MacCulloch DK. General principles of insulin therapy in diabetes mellitus. UpToDate.

Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Doutor em Endocrinologia
CREMERS 30.576 - RQE 22.991

domingo, 1 de julho de 2018

Tumores de hipófise descobertos ao acaso: incidentalomas de hipófise

A hipófise, também conhecida como "glândula mestra", está localizada embaixo do cérebro, logo atrás dos olhos. É responsável por controlar a secreção hormonal de outras glândulas, como a tireoide, as adrenais, os ovários e os testículos. Também produz a prolactina - o hormônio da amamentação.
A tomografia computadorizada e a ressonância magnética estão cada vez mais acessíveis. Algumas vezes, estes exames são solicitados por diferentes motivos, mas acabam mostrando alguma alteração na hipófise. Por exemplo, um neurologista pode solicitar uma tomografia do crânio para avaliar sintomas de perda de memória, mas acaba encontrando um tumor na hipófise. Chamamos de incidentalomas estas lesões descobertas ao acaso.



Os incidentalomas hipofisários são muito comuns e podem ser encontrados em até três de cada dez exames de imagem da cabeça. Estas lesões podem ser classificadas em dois grupos conforme os seus tamanhos.
As lesões de até 10 milímetros têm menor probabilidade de produzir hormônios, aumentar de tamanho ou produzir sintomas. Pacientes com este tipo de lesão devem ser avaliados clinicamente e dosar no sangue apenas a prolactina ou o hormônio que se desconfia estar aumentado. No caso de haver qualquer tipo de produção hormonal, trata-se o paciente. Caso contrário, apenas reavaliações periódicas são necessárias.
Quando a lesão tem mais de 10 milímetros, mesmo que o paciente não apresente sintomas, precisamos saber se a hipófise está produzindo tanto hormônios para mais quanto para menos. Além disso, como a glândula fica bem próxima dos nervos dos olhos, o paciente também precisa ser avaliado pelo oftalmologista. Quando o tumor produz hormônios ou ameaça a visão, deve ser tratado. Quando assintomático, é reavaliado periodicamente a cada seis ou 12 meses.
Se necessário, o tratamento vai depender do tipo de hormônio que a hipófise está produzindo em excesso e se há comprometimento da visão ou compressão de outras estruturas dentro da cabeça. Em alguns casos há necessidade de cirurgia. Em outros, medicamentos em comprimidos ou injetáveis poderão ser utilizados.

Fonte: UpToDate.

Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Doutor em Endocrinologia
CREMERS 30.576 - RQE 22.991

sexta-feira, 29 de junho de 2018

“Lentes de contato” nasais para emagrecer – será que funciona?

Imagine que você está andando na rua e passa em frente a uma padaria no exato momento em que os pães saem do formo. Consegue imaginar o cheirinho? Deu água na boca? Pois é, o nosso olfato, especialmente quando somos mais jovens, tem algum efeito no controle do apetite.



Levando isso em conta a empresa Beck Medical desenvolveu um dispositivo para ser usado no nariz que diminui nossa capacidade de sentir aromas sem interferir na respiração. As “lentes de contato” nasais precisam ser usadas por pelo menos 12 horas por dia e duram 2 semanas.
A empresa avaliou a nova tecnologia em um estudo apresentado no Congresso Europeu de Obesidade de 2018. Dos 65 pacientes obesos que completaram o estudo, 37 usaram o dispositivo e 28 formavam o grupo controle. Todos os participantes receberam orientação dietética para reduzir o consumo de calorias. Após 14 semanas, os pacientes com menos de 50 anos de idade que usaram as “lentes” perderam em média 7,7 por cento do peso inicial. Já os pacientes que não usaram, perderam 4 por cento. Os pesquisadores perceberam que os usuários do dispositivo ingeriram menos alimentos e bebidas doces.
Apesar de animadores, os resultados do estudo ainda são preliminares e precisam ser replicados para sabermos qual perfil de paciente realmente pode se beneficiar da invenção. De qualquer maneira, surge uma nova linha de pesquisa no tratamento do excesso de peso e da obesidade: o estudo dos cheiros do que consideramos gostoso de comer.

Fonte: Nasal 'Contact Lens' May Help Fight Obesity - MedScape


Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Doutor em Endocrinologia
CREMERS 30.576 - RQE 22.991


sábado, 23 de junho de 2018

Hipotireoidismo durante a gravidez – quando e como fazer a avaliação

O hipotireoidismo durante a gravidez aumenta o risco para uma série de complicações, entre elas:
- pressão alta e pré-eclâmpsia;
- descolamento de placenta;
- parto prematuro;
- baixo peso ao nascer;
- aumento nas taxas de parto por cesariana;
- hemorragia após o parto;
- mortalidade neonatal;
- problemas no desenvolvimento neurocognitivo do bebê.


Hoje, os exames para avaliar o funcionamento adequado da tireoide são amplamente disponíveis e acessíveis. Logo, existe interesse crescente em avaliar mulheres grávidas com vistas a prevenir as complicações acima descritas.
No entanto, a prática conhecida como “rastreamento universal”, isto é, fazer exames de tireoide em toda mulher grávida, ainda é controversa.
Muitos obstetras e endocrinologistas preferem indicar a avaliação da função tireoidiana quanto existe suspeita de que algo possa estar errado – rastreamento em grupos de alto risco.

As mulheres que se enquadram em qualquer um dos itens abaixo são candidatas aos exames de tireoide:
- sintomas de hipotireoidismo - alguns como cansaço, ganho de peso e intestino preso podem ser confundidos com sintomas da própria gravidez;
- história familiar ou pessoal de doença na tireoide;
- história de anticorpos anti-TPO elevados;
- presença de bócio (aumento da tireoide);
- idade maior que 30 anos;
- diabetes tipo 1;
- história de radioterapia na cabeça ou pescoço;
- história de perda fetal ou parto prematuro;
- duas ou mais gestações prévias;
- infertilidade;
- uso recente de amiodarona, lítio ou exames contrastados.

O motivo da controvérsia é que a estratégia de fazer exame apenas nas gestantes de alto risco deixa de detectar até 30 por cento dos casos de hipotireoidismo. Por outro lado, os estudos que testaram o rastreamento universal não evidenciaram menor risco de complicações obstétricas com esta abordagem.

As gestantes candidatas à avaliação devem dosar o TSH no primeiro trimestre.
1- Se o TSH estiver entre o limite inferior trimestre específico da normalidade para o exame e 2,5 mUI/L, a maioria das mulheres não precisará de avaliação complementar. Exceções são as mulheres com anti-TPO positivo, história de tratamento com iodo radioativo, de cirurgia na tireoide ou radioterapia na cabeça ou pescoço. Estas merecem ser reavaliadas a cada trimestre da gestação.
2- Se o TSH for maior que 2,5 mUI/L, o anti-TPO também precisa ser avaliado. Se o anticorpo for positivo, o tratamento com hormônio tireoidiano pode ajudar a prevenir complicações.
3- Se o TSH for maior que o limite superior trimestre específico da normalidade para o exame, o T4 livre deve ser avaliado para estimar o grau do hipotireoidismo e definir a melhor forma de tratamento.

Com estes resultados em mãos, o endocrinologista avalia a necessidade de tratamento, calcula a dose mais apropriada da reposição hormonal e planeja o seguimento.

Fonte: Ross DS. Hypothyroidism during pregnancy: Clinical manifestations, diagnosis, and treatment. UpToDate.

Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Doutor em Endocrinologia
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domingo, 17 de junho de 2018

Triglicerídeos elevados: o que fazer?

Os triglicerídeos são moléculas de gordura cuja principal função é fornecer energia ao organismo. São normalmente dosados no sangue após 12 horas de jejum e valores maiores que 150 mg/dL são considerados elevados. Estima-se que 1 em cada 3 pessoas tenham níveis elevados de triglicerídeos.



Várias são as condições que podem levar ao aumento dos níveis de triglicerídeos. Entre as principais estão o excesso de peso/obesidade, consumo de álcool, diabetes mellitus, doença dos rins, hipotireoidismo, uso de estrogênios (hormônio feminino), uso de alguns medicamentos, além da história familiar, isto é, fatores genéticos.
Apesar de intenso debate no passado, hoje se sabe que níveis elevados de triglicerídeos estão associados a aumento do risco de doenças cardíacas e vasculares. O aumento no risco para essas doenças não ocorre somente pelos níveis elevados de triglicerídeos, mas também por condições associadas como níveis baixos de colesterol HDL (colesterol bom), colesterol LDL (colesterol ruim) com maior potencial de entupimento vascular, resistência à insulina e aumento da coagulabilidade sanguínea.
Quanto ao tratamento, existem controvérsias. Os pacientes devem manter o peso dentro do normal, fazer atividades físicas, além de evitar doces, carboidratos refinados e álcool. Existem opções de medicamentos que podem ser usadas dependendo dos níveis de triglicerídeos. No entanto, o uso de remédios é reservado para casos selecionados, já que ajudam pouco na prevenção de doenças cardiovasculares.

Fonte: UpToDate.

Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Doutor em Endocrinologia
CREMERS 30.576 - RQE 22.991

domingo, 3 de junho de 2018

Tratamento da osteoporose após a menopausa

Chamamos de menopausa a última menstruação. A menopausa é um dos marcos da diminuição da produção hormonal pelos ovários. Entre as consequências desta fase da vida da mulher, pode estar a osteoporose.
A osteoporose é uma doença assintomática caracterizada por aumento da fragilidade dos ossos que pode ser facilmente diagnosticada através da densitometria óssea. Feito o diagnóstico, o que pode ser feito para prevenir as fraturas?


Primeiramente o endocrinologista certifica-se através de alguns exames laboratoriais que a osteoporose não possui uma causa secundária além da deficiência hormonal pós-menopáusica. Feito isto, o tratamento divide-se em medidas não farmacológicas e farmacológicas.
As medidas não farmacológicas são garantir uma ingesta apropriada de cálcio e de vitamina D, nutrientes fundamentais para a saúde óssea, além de fazer atividades físicas regulares e evitar o cigarro. As atividades físicas são importantes, pois previnem fraturas. Já o cigarro deve ser evitado, porque está associado a aumento da fragilidade dos ossos.
Os medicamentos usados para o tratamento da osteoporose devem ter eficácia e segurança comprovadas na prevenção de fraturas principalmente de quadril, que são as mais graves. A classe de medicamentos que melhor se enquadra neste perfil é a dos bisfosfonatos (alendronato, risedronato, zoledronato). Para pacientes que não se adaptam, possuem contraindicações ou não respondem aos bisfosfonatos, existem outras opções de tratamento. Os medicamentos de segunda linha têm custo mais alto e são menos estudados, logo, antes de serem prescritos, a paciente deve ser cuidadosamente reavaliada.
O acompanhamento da paciente com osteoporose pós-menopáusica é feito em intervalos regulares que dependem das características individuais de cada mulher, sendo que o intervalo pode variar de 1 até 3 anos. Nestas consultas são avaliados exames laboratoriais e a densitometria óssea, além da história clínica da paciente e adesão ao tratamento.

Fonte: UpToDate.

Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Doutor em Endocrinologia
CREMERS 30.576 - RQE 22.991

domingo, 27 de maio de 2018

Existe remédio para o fígado gorduroso (esteatose hepática)?

A doença hepática gordurosa não alcoólica, popularmente conhecida como esteatose hepática ou simplesmente fígado gorduroso, já é um problema de saúde pública. Nos Estados Unidos, onde o excesso de peso, a obesidade e o diabetes mellitus são muito frequentes, estima-se que uma em cada quatro pessoas seja acometida pela esteatose hepática. Por ser uma doença assintomática, a maioria dos portadores nem desconfia do problema.
Uma vez feito o diagnóstico, vem a pergunta: existe remédio para o fígado gorduroso? Por ser uma doença fortemente associada ao excesso de peso, o primeiro passo é procurar emagrecer mais de 7% do peso total. A perda de peso é capaz de melhorar a doença em mais de 90% dos casos. Mas e remédio mesmo, no sentido estrito do termo, existe algum? Existe, mas os medicamentos têm efeito limitado e são reservados a casos especiais. Vamos conhecê-los…


Pioglitazona

A pioglitazona é um medicamento originalmente desenvolvido para o tratamento do diabetes tipo 2. De forma simplificada, funciona melhorando a sensibilidade à insulina. Como a resistência à insulina é um dos mecanismos que leva ao acúmulo de gordura no fígado, a pioglitazona também poderia ajudar no tratamento da esteatose hepática.
Os estudos que avaliaram o uso da pioglitazona selecionaram pacientes que além de acúmulo de gordura no fígado, também apresentavam hepatite (esteato-hepatite não alcoólica) e fibrose (processo cicatricial que pode levar à cirrose). Para diagnosticar a esteato-hepatite não alcoólica sem dúvidas, a realização de uma biópsia do fígado se faz necessária. Quando comparada ao placebo (comprimido sem efeito), a pioglitazona ajuda a melhorar a inflamação hepática em cerca de metade dos pacientes, além de, aparentemente, retardar o processo de fibrose. No entanto, como os estudos realizados até o momento foram de curta duração, não sabemos se esta melhora em nível celular se reflete na prevenção de complicações clínicas. Em outras palavras, não existem evidências de que a pioglitazona seja capaz de evitar a cirrose e suas complicações como hemorragias digestivas, câncer de fígado ou necessidade de transplante.
O uso da pioglitazona é associado a efeitos indesejados. Ganho de peso, aumento do risco de insuficiência cardíaca, aumento do risco de fraturas, aumento (pequeno) no risco de câncer de bexiga devem ser pesados contra a melhora da atividade inflamatória do fígado na indicação do tratamento.
Em vista do exposto, a pioglitazona é reservada a pacientes com esteato-hepatite não alcoólica com fibrose confirmada por biópsia, isto é, casos com maior risco de evolução para cirrose.

Vitamina E

A vitamina E tem efeito antioxidante. O estresse oxidativo é um dos mecanismos por trás da esteato-hepatite não alcoólica. Quando comparada ao placebo, a vitamina E também ajuda a melhorar a atividade inflamatória no fígado. No entanto, diferentemente da pioglitazona, não parece retardar a progressão da fibrose. Além disso, pouco mais de um terço dos pacientes responde de forma apropriada.
Alguns estudos associam o uso regular de mais de 800 UI por dia de vitamina E com aumento no risco de morte. Já o estudo DIRECT associou o uso de doses maiores que 400 UI por dia com aumento no risco de câncer de próstata em homens. Devido ao perfil de segurança menos atraente, a vitamina E é reservada para pacientes com esteato-hepatite não alcoólica com fibrose confirmada por biópsia, não diabéticos e com baixo risco cardiovascular.

Existem outros medicamentos promissores sendo avaliados para o tratamento do fígado gorduroso, como o liraglutide e o ácido obeticólico, mas ainda não foram aprovados pelas agências regulatórias para este uso.
Em resumo, o tratamento mais seguro e sem contraindicações para a esteatose hepática ainda é a mudança no estilo de vida com o objetivo de reduzir o peso. Os medicamentos têm uso restrito a casos mais graves confirmados por biópsia.

Referência:
Diehl AM, Day C. Cause, Pathogenesis, and Treatment of Nonalcoholic Steatohepatitis. N Engl J Med. 2017 Nov 23;377(21):2063-2072.

Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Doutor em Endocrinologia
CREMERS 30.576 - RQE 22.991

domingo, 13 de maio de 2018

Pílula anticoncepcional e câncer de mama: existe motivo para pânico?

Desinformação faz muito mal à saúde! E o alvo da vez é a pílula anticoncepcional. Como as disfunções hormonais são mais frequentes no sexo feminino, atendo muitas mulheres, de todas as idades, todos os dias. Algumas dessas pacientes estão com receio de tomar a pílula, mesmo com indicação correta, por conta de conteúdos distorcidos que encontram disponíveis na internet. O alarme mais recente disparou quando a revista médica mais importante do mundo, o New England Journal of Medicine, publicou no final de 2017 um artigo dinamarquês associando o uso de anticoncepcionais hormonais a um pequeno aumento no risco de câncer de mama. Será, de fato, motivo para pânico?


Neste estudo, cerca de 1.800.000 mulheres com idade entre 15 e 49 anos foram acompanhadas por 11 anos em média. Durante este período, foram diagnosticados 5.955 casos de câncer em mulheres que NUNCA tomaram uma única pílula anticoncepcional e 2.883 casos em mulheres que usaram algum método hormonal por período maior que seis meses. O número de casos de câncer foi maior nas não usuárias, pois compreendiam a maior parte da população avaliada. Em termos relativos, o uso de qualquer tratamento hormonal (pílula, anel vaginal, adesivo, implante ou DIU) aumentou o risco de câncer de mama em 20 por cento em média - um pouco menos em quem usou por período mais curto e um pouco mais em quem usou por tempo mais prolongado.



À primeira vista, 20% pode parecer um número elevado. Mas a estatística prega peças no leitor desatento. Vou dar um exemplo hipotético: imaginem dois grupos de 100 pacientes. Um grupo assiste 30 minutos de TV todos os dias. O outro lê um livro por 30 minutos diariamente. Ao final de dez anos, duas pessoas no grupo da TV e uma pessoa no grupo dos livros desenvolvem Alzheimer. O risco relativo para desenvolver Alzheimer é 100 por cento maior no grupo da TV (!), embora, em termos absolutos, tenho sido as custas de apenas um caso a mais. No estudo dinamarquês, de cada 100.000 mulheres que usaram algum método contraceptivo hormonal, ocorriam 13 casos a mais de câncer quando comparado ao grupo que nunca tomou uma única pílula. Em outras palavras, um evento adverso, apesar de grave, pouco frequente.
Além disso, na avaliação por tipo de anticoncepcional, nem todos aumentaram o risco de câncer de mama. Pílulas com noretisterona, drospirenona, estradiol + dienogest e os métodos não orais, com exceção do DIU hormonal, não apresentaram aumento significativo no risco de câncer.
Os próprios autores do estudo concluem que o risco de câncer de mama é baixo e deve ser pesado contra os benefícios em prevenir uma gestação indesejada, além da potencial redução no risco de tumores malignos de ovário (redução de 30%), endométrio (redução de até 50%) e intestino grosso (redução de até 20%). Que a pílula pode reduzir risco de câncer, ninguém comenta...



A meu ver, dois são os motivos para a demonização indevida da pílula anticoncepcional. O primeiro é a ignorância. Ler um artigo científico é algo que exige tempo, técnica e crítica. Muitos cursos de Medicina são deficientes nesse quesito, e, infelizmente, sabemos que não é todo médico que tem a oportunidade de sanar essas dificuldades com uma boa formação - residência médica, prova de título de especialista, mestrado e/ou doutorado. Muitos acabam sendo seduzidos pelos “cursos de final de semana”, ministrados por pessoas despreparadas. E quem não sabe ler, tem que acreditar em quem diz que sabe. Triste…
O segundo é o interesse econômico. Ora, se eu convencer minha paciente que a pílula que ela compra por 20 reais vai causar um câncer de mama, posso oferecer meu tratamento de modulação hormonal com “hormônios bioidênticos” por um bom preço. O problema desta modalidade terapêutica, além do alto custo, é o perfil de segurança desconhecido. Em outras palavras, a ausência de estudos que demonstram risco não significa que o tratamento seja seguro. Apenas significa que a modalidade terapêutica não foi bem avaliada – você está servindo de cobaia de um experimento – ou os dados da avaliação estão sendo omitidos. Não sei o que considero pior…
Em resumo, quando a notícia for sensacionalista, sempre chequem as fontes da informação. Verifiquem as credenciais de quem escreveu o conteúdo. Está registrado no Conselho Regional de Medicina? Tem registro de especialista (RQE)? Tem condições mínimas de ler e interpretar a literatura científica? A popularização da internet, infelizmente, também deu voz a quem fala bobagem.

Fontes: 
1- Mørch LS, Skovlund CW, Hannaford PC, Iversen L, Fielding S, Lidegaard Ø. Contemporary Hormonal Contraception and the Risk of Breast Cancer. N Engl J Med. 2017 Dec 7;377(23):2228-2239.
Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Doutor em Endocrinologia
CREMERS 30.576 - RQE 22.991

terça-feira, 1 de maio de 2018

Vale a pena investir em suplementos alimentares?

Vitaminas e suplementos são um grande negócio. Segundo o New York Times, os americanos gastam mais de 30 bilhões de dólares por ano com “cápsulas milagrosas”. Ano após ano, as empresas fabricantes estimulam a crença de que se pode prevenir doenças, viver mais e com mais energia, se fizermos uso dos seus suplementos alimentares. Será isso mesmo?
Diversas pesquisas vem sendo desenvolvidas na área de suplementação alimentar. No entanto, elas têm mostrado que, em grande parte das vezes, os suplementos não ajudam. E pior: algumas vezes podem fazer mais mal do que bem à saúde. Abaixo, alguns fatos sobre suplementos.



1- Vitamina E e betacaroteno não previnem câncer ou doença cardiovascular.
Existem grandes estudos com essas vitaminas mostrando que não ajudam na prevenção destas doenças.

2- Pouco se sabe sobre multivitamínicos.
A evidência de que possa existir algum benefício é insuficiente.

3- Vitamina E e betacaroteno podem fazer mal à saúde.
Os estudos mostram que o uso de betacaroteno pode aumentar o risco de câncer em pessoas que fumam ou que se expuseram ao asbesto. Outros estudos associam o consumo de vitamina E ao câncer de próstata. Segundo os pesquisadores, homens com mais de 55 anos não deveriam consumir mais do 22 UI de vitamina E de fontes naturais por dia.

4- Existem formas melhores de prevenir doenças e viver mais.
Não fumar, manter o peso saudável e fazer pelo menos 30 minutos de atividades físicas na maioria dos dias da semana previnem doenças cardiovasculares e câncer de forma muito mais eficiente do que qualquer suplemento.

5- Nutrientes devem vir da alimentação saudável, não de suplementos.
Diversos estudos sugerem que a dieta mediterrânea ajude a prevenir doenças cardiovasculares e alguns tipos de câncer. Esse padrão alimentar se caracteriza pelo alto consumo de frutas e vegetais, além de carnes brancas magras, peixes, castanhas e nozes, azeite de oliva e grãos integrais.

6- Suplementos podem ser úteis em situações específicas.
Algumas pessoas podem se beneficiar de suplementos. Entre eles:
- mulheres que planejam ficar grávidas devem tomar ácido fólico.
- algumas pessoas com mais de 65 anos precisam tomar vitamina D.
- vegetarianos costumam precisar repor vitamina B12.

Conversar com profissionais sérios ajuda a fazer uso racional de vitaminas e suplementos apenas quando houver indicação precisa. Além de economizar recursos, essa atitude resguarda sua saúde.

Adaptado de:

Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Doutor em Endocrinologia
CREMERS 30.576 - RQE 22.991

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Seis fatos sobre terapia hormonal com hormônios ditos bioidênticos em mulheres

A terapia hormonal tem diversos usos dentro da Medicina. Em mulheres, a reposição hormonal está indicada especialmente para tratamento dos fogachos que surgem perto da menopausa. O interesse por terapias alternativas, especialmente a feita com hormônios ditos "bioidênticos", cresceu bastante nos últimos anos. A busca por tratamentos "mais naturais" e o intenso trabalho de marketing explicam esse fenômeno. Mas será uma opção superior à convencional? Vamos aos fatos...




1- Hormônios ditos bioidênticos são iguais aos hormônios convencionais.
A indústria farmacêutica produz hormônios modificando quimicamente extratos de plantas, especialmente soja, para criar moléculas idênticas às do nosso organismo. Isso vale tanto para as preparações comerciais quanto para os bioidênticos. A indústria que produz ambos é a mesma. A única diferença é que o termo "bioidêntico" costuma ser usado para preparações feitas por farmácias de manipulação.

2- Os bioidênticos apresentam menor pureza.
Na prática, as doses referidas nas prescrições costumam ser bastante diferentes das doses presentes nos produtos. Segundo o FDA, órgão equivalente a ANVISA nos Estados Unidos, as potências variam de 67,5 a 268 por cento do referido no rótulo ou na prescrição (1). Além disso, a absorção da moléculas costuma ser menor quando comparada ao tratamento convencional. Em outras palavras, o risco de dosagem abaixo ou acima da recomendada é muito alto, especialmente nas formas que não permitem ajuste da posologia, caso dos implantes (figura).

3- Implantes hormonais não são para todo mundo.
A terapia de reposição hormonal tem indicações muito precisas (sintomas como fogachos e disfunção sexual em mulheres no período perimenopausa, por exemplo). Implantes hormonais jamais devem ser prescritos com a intenção de melhorar vitalidade, sensação de energia ou aparência física. Mulheres jovens tendem a ser um grupo de maior risco. O uso de testosterona e a liberação hormonal errática do implante podem levar a efeitos deletérios na função reprodutiva, isto é, podem diminuir a fertilidade.

4- O tratamento com bioidênticos custa caro.
Apesar de algumas formulações custarem menos que algumas apresentações comerciais, o custo do tratamento com bioidênticos costuma ser muito maior por dois motivos: solicitação de muitos exames desnecessários na tentativa de monitorar a terapia; alto custo da consulta dos profissionais prescritores, devido ao risco que assumem ao indicar tratamento sem comprovação científica.

5- Não existem dados sobre a segurança da terapia com bioidênticos.
Ausência de estudos evidenciando risco não significa que o tratamento seja seguro. Significa apenas que os dados não foram devidamente avaliados ou estão sendo omitidos. Não dá pra dizer que o uso de bioidênticos não aumenta o risco de câncer de mama ou de trombose, sem que bons estudos tenham sido feitos. Todo tratamento precisa ter seu perfil de segurança devidamente estudado antes de ser amplamente prescrito. É dessa forma que conhecemos os possíveis efeitos adversos, quem está mais propenso a apresentá-los e, principalmente, como devemos agir caso apareçam.

6- O uso de bioidênticos não é recomendado por sociedades médicas sérias.
Sociedade médicas internacionais (North American Menopause Society, American College of Obstetricians and Gynecologists e Endocrine Society) e a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) não recomendam tratamento com bioidênticos por entenderem que os riscos são maiores que os benefícios. 

Referências:
1- US Food and Drug Administration. Bio-identicals: Sorting myths from facts http://www.fda.gov/Drugs/GuidanceComplianceRegulatoryInformation/PharmacyCompounding/ucm049311.htm (Accessed on November 20, 2012).
2-  Martin KA, Barbieri RL. Treatment of menopausal symptoms with hormone therapy. UpToDate.

Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Doutor em Endocrinologia
CREMERS 30.576 - RQE 22.991

terça-feira, 3 de abril de 2018

Doença renal não causada pelo diabetes em pacientes diabéticos

"Nem tudo que reluz é ouro", diz o ditado. Isso também vale para doença renal em pacientes com diabetes mellitus. A nefropatia diabética - doença que ataca os rins de indivíduos diabéticos - é uma das complicações microvasculares mais frequentes e temidas.  O problema pode atingir até cerca de 30 por cento dos pacientes. Seu aparecimento depende de fatores como o tipo de diabetes, duração da doença, genética, controle das taxas glicemia e de pressão arterial.



Quando o endocrinologista atende um paciente com mau funcionamento dos rins, o mais provável é que o diabetes tenha causado o problema. No entanto, existem casos onde outras doenças podem ser culpadas. Os seguintes achados clínicos levantam essa suspeita:
- perda de proteína na urina nos primeiros 5 anos de diagnóstico, no diabetes tipo 1.
- início súbito de doença renal, já que a nefropatia diabética é caracterizada por ser lentamente progressiva, evoluindo no decorrer de anos.
- perda de células sanguíneas através dos rins. Isso é verificado através do exame comum de urina ou EQU. Quando o glomérulo, estrutura que filtra o sangue dentro dos rins, está doente, as hemácias - células vermelhas do sangue - podem ser indevidamente filtradas e parecer no formato de estruturas chamadas de cilindros ou acantócitos na urina.
- ausência de doença na retina em pacientes com diabetes tipo 1. Ora, se os vasos snaguineos do fundo do olho também são pequenos, espera-se que a doença microvascular acomenta ao mesmo tempo tanto a retina quanto os rins.
- sinais e sintomas de outras doenças como lupus, púpura, mieloma, hepatite C, entre outras.
- queda brusca na taxa de filtração dos rins (mais que 30 por cento em 3 meses) quando se inicia inibidores da ECA ou ARA II, medicamentos utilizados na proteção renal. Essa queda abrupta, sugere diagnóstico de nefroesclerose ou de estreitamento das artérias renais, especialmente em pacientes idosos com diabetes tipo 2.
Nesses casos, a avaliação do nefrologista é muito importante e tem como objetivo tentar diagnosticar, em até 38 por cento dos casos (1), outras doenças renais que possam ter manejo diferente.

Referências:
1- Mazzucco G, Bertani T, Fortunato M, Bernardi M, Leutner M, Boldorini R, Monga G. Different patterns of renal damage in type 2 diabetes mellitus: a multicentric study on 393 biopsies. Am J Kidney Dis. 2002;39(4):713.
2-  Bakris GL. Overview of diabetic nephropathy. UpToDate.


Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Doutor em Endocrinologia
CREMERS 30.576 - RQE 22.991

segunda-feira, 26 de março de 2018

Nódulos de tireoide com calcificações

Ao contrário do que muitos imaginam, a presença de calcificações em nódulos de tireoide nem sempre é sinal de benignidade. Um estudo realizado na Grécia (1) observou risco 2,5 vezes maior de nódulos com calcificações serem malignos. No entanto, a simples constatação da existência de cristais de cálcio dentro de um nódulo não é capaz de definir quem, de fato, tem um câncer. Dependendo das características ultrassonográficas das calcificações e dos nódulos, conseguimos estimar melhor o risco para indicar a punção com agulha fina. A seguir, são apresentados alguns padrões de calcificação bastante frequentes junto com o seu possível significado.

Nódulo com calcificação em casca de ovo

Microcalcificações: pequenas calcificações com menos de um milímetro, apesar de pouco frequentes, são altamente sugestivas de carcinoma papilífero de tireoide. Na ecografia, as microcalcificações aparecem como pontos brilhantes e estão associadas ao câncer em um terço dos casos.

Calcificações em casca de ovo: é o tipo de calcificação de reveste a borda externa de um nódulo (figura). É sinal de cronicidade, ou seja, é mais frequente em nódulos benignos. No entanto, existem alguns tipos de câncer que podem sofrer alterações degenerativas e também apresentar calcificações periféricas. Quando o tecido do nódulo rompe essa "casca", ou seja, quando é possível detectar extrusão de conteúdo através da calcificação com a ultrassonografia, o nódulo passa a ser considerado altamente suspeito de malignidade.

Calcificações grosseiras (em pipoca) e dispersas: são sinais de sangramento prévio e podem ser encontradas tanto em nódulos benignos (mais frequentemente) quanto malignos.

Grandes áreas de calcificação: são incomuns, mas podem ser vistas no câncer medular de tireoide.

O achado de calcificações em nódulos de tireoide é bastante comum na prática clínica e deve ser cuidadosamente interpretado pelo médico endocrinologista. Sozinhas, as calcificações não definem diagnóstico nem conduta. Mas dentro do contexto clínico, trazem informações relevantes para o manejo correto do paciente.


Fontes:
1- Kakkos SK, Scopa CD, Chalmoukis AK, Karachalios DA, Spiliotis JD, Harkoftakis JG, Karavias DD, Androulakis JA, Vagenakis AG. Relative risk of cancer in sonographically detected thyroid nodules with calcifications. J Clin Ultrasound. 2000;28(7):347. 
2- Ross DS. Diagnostic approach to and treatment of thyroid nodules. UpToDate.

Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Doutor em Endocrinologia
CREMERS 30.576 - RQE 22.991

segunda-feira, 12 de março de 2018

Quando fazer e quando não fazer a ecografia da tireoide

Exames desnecessários ou em excesso podem fazer mal à saúde! Quando um exame é realizado sem indicação precisa, pode acabar detectando alterações com significado clínico questionável. Em outras palavras, pode mostrar algumas coisas que não são necessariamente doença, mas que podem gerar dúvidas no médico e ansiedade no paciente. A consequência imediata disso é a solicitação de mais exames, muitas vezes mais caros e invasivos, para tentar esclarecer aquela primeira alteração. Em alguns casos, até tratamentos desnecessários são prescritos por culpa do exame mal indicado.

Ecografia de tireoide para guiar punção.

ecografia ou ultrassonografia é o melhor exame complementar para avaliar a anatomia da tireoide. Também é amplamente disponível e tem preço acessível. Essas vantagens, no entanto, não significam que todo mundo deva fazer um ultrassom de tireoide. O médico endocrinologista lança mão deste exame nas seguintes situações:
- para avaliar a anatomia da tireoide quando suspeita de alguma anormalidade no exame clínico (palpação do pescoço);
- para avaliar alterações na tireoide descobertas ao acaso em outros exames como ecodoppler de carótidas, ressonância magnética ou tomografia computadorizada;
- para guiar punção aspirativa com agulha fina (PAAF) em nódulos ou linfonodos (ínguas);
- para monitorar nódulos já diagnosticados;
- para ajudar a planejar a cirurgia no caso de câncer de tireoide;
- para monitorar possíveis recidivas no paciente em tratamento para câncer de tireoide;
- quando há suspeita de bócio no feto, ou seja, no bebê mesmo antes de ter nascido;
- para rastrear câncer em grupos selecionados de pacientes com alto risco para esta doença, como 
- para facilitar algumas investigações epidemiológicas dentro do ambiente de pesquisa acadêmica
O ultrassom pode ser solicitado para esclarecer algumas outras situações muito específicas. Mas nunca para avaliar a produção hormonal - o que é feito através de exames de sangue - ou como parte de check up. Trata-se de um exame complementar, isto é, não substitui a avaliação do médico, mas é extremamente útil quando bem indicado.

Fonte: Overview of the clinical utility of ultrasonography in thyroid disease - UpToDate

Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Doutor em Endocrinologia
CREMERS 30.576 - RQE 22.991

terça-feira, 6 de março de 2018

Vale a pena investir na dieta do DNA?

Quem lembra da dieta do tipo sanguíneo? Não faz muito tempo, esse regime alimentar propunha selecionar os alimentos de acordo com o sangue. Quem era A deveria comer isso, quem era B deveria comer aquilo, quem era O deveria comer aquele outro. Algo completamente sem respaldo científico, que beirava o charlatanismo puro, felizmente foi abandonado - pelo menos pela maior parte das pessoas...



Mas a ideia de tentar encontrar a melhor alimentação baseada nas características individuais de cada pessoa permanece. Dentro das próprias pesquisas científicas que avaliavam diferentes tipos de dieta, sempre se observou que algumas pessoas perdiam mais peso que outras. Entre as explicações para este achado, está a genética.
De fato, alguns estudos conseguiram encontrar alguns genótipos, isto é, padrões específicos dentro do DNA que poderiam predispor uma pessoa a perder mais peso com uma dieta do que com outra. No entanto, estas análises apresentavam algumas limitações: ou eram pequenas demais, ou estavam sujeitas a viés (como os cientistas chamam a chance de erro).
Para avaliar se as características genéticas realmente teriam impacto na escolha do melhor tipo de dieta para perda de peso, foi proposto o estudo DIETFITS, publicado na revista médica JAMA no início de 2018.
O DIETFITS recrutou 609 homens e mulheres, com idade entre 18 e 50 anos, com sobrepeso ou obesidade e sem doenças associadas. Após um sorteio, cada participante poderia ser encaminhado para acompanhamento com uma dieta pobre em carboidratos ou pobre em gorduras. O objetivo principal do estudo foi avaliar se as pessoas com perfil genético "pouca gordura" emagreceriam mais comendo menos alimentos gordurosos, da mesma forma que pessoas com perfil genético "pouco carboidrato" emagreceriam mais ingerindo menos desse tipo de alimento. Algo que apesar de plausível e esperado, ainda não havia sido testado dentro de uma pesquisa clínica.
Após 12 meses, todo mundo perdeu cerca de 6 quilos, independentemente do tipo de dieta. Ao analisar a perda de peso de cada participante, para verificar se o perfil genético poderia fazer uma dieta funcionar melhor do que a outra, para surpresa dos pesquisadores, não se encontrou nenhuma diferença. Além disso, não houve diferença significativa na glicose, percentual de gordura, circunferência abdominal, pressão arterial, entre outros fatores. Como era de esperar, quem comeu menos carboidrato apresentou redução nos triglicerídeos e aumento do colesterol HDL (bom). Já quem comeu menos gordura conseguiu reduzir com colesterol LDL (ruim). Algo que não teve grande impacto clínico.
Apesar da grande evolução da genética, o DIETFITS nos mostrou que até o presente momento não faz diferença tentar selecionar um padrão alimentar com base em exames que avaliem o DNA ou o genoma. Esse tipo de exame já é disponibilizado comercialmente por alguns laboratórios a um custo relativamente alto. Mas ao que tudo indica, ainda estão longe de conseguirem ajudar alguém a perder peso de maneira mais fácil...
A boa notícia é que dá pra perder peso independemente da composição da dieta. Isso ajuda a evitar restrições e a montar um  cardápio de acordo com as preferências pessoais do paciente.
Então, não se deixe enganar pela dieta da moda, das celebridades... aquela regrinha básica que manda ter bom senso, moderação, priorizar alimentos pouco processados, cozinhar em casa e manter uma vida ativa ainda será a melhor opção por um bom tempo.

Fonte:
Gardner, C.D. et al. The DIETFITS RCT. JAMA, 2018.

Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Doutor em Endocrinologia
CREMERS 30.576 - RQE 22.991

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Tireoide pode doer?

Sim, pode doer. Felizmente, as doenças que causam dor na tireoide são pouco prevalentes. A mais comum delas é a tireoidite subaguda, que acomete cerca de 12 pessoas em cada 100.000 por ano, a maioria mulheres - até cinco para cada homem.


Aparentemente, a tireoidite subaguda tem relação com infecções virais. Muitos pacientes relatam história de sintomas respiratórios duas a oito semanas antes do início do quadro. Este é caracterizado principalmente por dor na região anterior do pescoço, logo abaixo do pomo-de-Adão, que pode ser intensa. Em alguns pacientes a dor irradia para o tórax, região superior do pescoço, garganta, mandíbula ou, até mesmo, ouvidos. Por isso, às vezes, o otorrino acaba sendo consultado antes do endocrinologista. Sintomas como febre, mal estar, perda do apetite, fadiga e dores musculares também são comuns. Além dos sintomas dolorosos, cerca de metade dos pacientes também apresenta sintomas de hipertireoidismo - tremor, taquicardia, palpitações, perda de peso involuntária.
O diagnóstico é feito através do exame clínico e de alguns exames laboratoriais - TSH, T4 livre, T3, proteína C reativa e velocidade de sedimentação globular. Em alguns casos, a ecografia e a cintilografia da tireoide também são necessárias. Outras doenças, bem menos frequentes, que também são causa de dor ou desconforto na tireoide e precisam fazer parte do diagnóstico diferencial são: tireoidite pós iodo, tireoidite traumática (após lesão mecânica da tireoide), necrose de nódulos, raros casos de câncer ou linfoma de tireoide e tireoidite aguda (causado por infeção bacteriana ou fúngica).
A tireoidite subaguda tem curso autolimitado, isto é, costuma melhorar espontaneamente sem deixar sequelas dentro de 4 a 8 meses. Durante este período, o médico endocrinologista prescreve medicamentos para alívio dos sintomas: anti-inflamatórios para a dor e betabloqueadores para os sintomas de hipertireoidismo.

Fonte: Subacute thyroiditis - UpToDate

Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Doutor em Endocrinologia
CREMERS 30.576 - RQE 22.991