domingo, 7 de maio de 2017

Vacinação no paciente com diabetes: hepatite B

Atualmente a vacina contra hepatite B faz parte do calendário vacinal de crianças, adultos e idosos no Brasil. Em outras palavras, tem recomendação universal. No entanto, alguns grupos apresentam risco maior de infecção pelo vírus da hepatite B, como profissionais de saúde e pessoas portadoras de diabetes. Nesses grupos, as campanhas devem ser ainda mais intensas!



Pacientes diabéticos com menos de 60 anos, tanto do tipo 1 quanto do tipo 2, têm risco duas vezes maior de contrair hepatite B quando comparados a pessoas sem diabetes com a mesma idade. Nos pacientes diabéticos com mais de 60 anos, o risco também é um pouco maior, mas sem significância estatística, ou seja, este pequeno aumento do risco nos idosos pode não ser real.
Logo, todo paciente diabético com menos de 60 anos, desde o momento do diagnóstico, deve ser imunizado contra a hepatite B caso ainda não tenha recebido a vacina. São três doses feitas com 0, 1 e 6 meses de intervalo. Os pacientes diabéticos com mais de 60 anos também podem ser vacinados, principalmente se viverem em instituições como asilos ou casas geriátricas. Contudo a eficácia da vacina parece ser menor nos idosos.
A prevenção contra hepatite B é muito importante já que se trata de uma doença facilmente transmissível através de sangue e outros fluidos. Cerca de 40% dos pacientes precisam de hospitalização na infecção aguda e 4% morrem de complicações. Além disso, 5% dos pacientes tornam-se portadores crônicos do vírus e destes, 15% progridem para cirrose e/ou câncer de fígado.
Se você é diabético, evite compartilhar insulinas, canetas, seringas ou glicosímetros. Além disso, exija do seu médico encaminhamento para vacinação através da rede pública.

Fonte: Medscape

Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Mestre em Endocrinologia
CREMERS 30.576 - RQE 22.991

domingo, 16 de abril de 2017

Rachando a mania por óleo de coco

Não canso de repetir: a internet é uma ferramenta maravilhosa de busca e acesso à informação, mas devemos ter cuidado com a grande quantidade de besteira que circula na rede! Um dos últimos engôdos é citar a respeitada Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, para tentar justificar o modismo do “óleo de coco que tudo trata”.
Costumo sempre escrever meus próprios textos, mas para fazer frente a tanta lorota e mentira, desta vez vou apenas traduzir um texto publicado no blog de saúde da Universidade de Harvard, no dia 10 de abril de 2017, sobre o óleo de coco. Boa leitura!



Rachando a mania por óleo de coco

Julie Corliss, editora do Harvard Heart Letter

Se você buscar no Google "óleo de coco", verá uma enorme quantidade de histórias promovendo os alegados benefícios para a saúde desta gordura branca sólida, que é fácil de encontrar nos supermercados nos dias de hoje. Mas como pode algo que é repleto de gordura saturada - uma conhecida culpada em levantar risco de doença cardíaca - ser bom para você?
O coco tem algumas qualidades únicas que os entusiastas citam para explicar seus possíveis benefícios à saúde. Mas a evidência para apoiar essas alegações é muito frágil, diz o Dr. Qi Sun, professor-assistente no Departamento de Nutrição da Escola de Saúde Pública de Harvard.
"Se você quiser reduzir o risco de doença cardíaca, o óleo de coco não é uma boa escolha", diz ele. É verdade que o óleo de coco tende a aumentar o colesterol HDL, benéfico, mais do que outras gorduras, possivelmente por ser rico em ácido láurico, um ácido graxo que o corpo processa de forma ligeiramente diferente do que faz outras gorduras saturadas.

O efeito do óleo de coco sobre o colesterol

Mas não há evidências de que o consumo de óleo de coco possa diminuir o risco de doenças cardíacas, de acordo com um artigo publicado em abril de 2016 no periódico Nutrition Reviews. O estudo, intitulado "Coconut Oil Consumption and Cardiovascular Risk Factors in Humans", revisou resultados de 21 estudos, a maioria dos quais examinou os efeitos do óleo de coco ou produtos de coco sobre os níveis de colesterol. Oito foram ensaios clínicos, em que voluntários consumiram diferentes tipos de gorduras, incluindo óleo de coco, manteiga e óleos vegetais insaturados (como oliva, girassol, cártamo e óleo de milho) por curtos períodos de tempo. Em comparação com os óleos insaturados, o óleo de coco aumentou os níveis de colesterol total, HDL e LDL, embora não tanto quanto a manteiga.
Estas conclusões estão de acordo com os resultados de um estudo realizado pelo Dr. Sun e colegas na edição de 23 de novembro de 2016 do British Medical Journal, que examinou as ligações entre diferentes tipos de ácidos graxos saturados e doenças cardíacas. Comparado com outras gorduras saturadas (como o ácido palmítico, que é abundante na manteiga), ácido láurico não parece aumentar tanto o risco cardíaco. Contudo, é provável que o baixo consumo de ácido láurico da dieta americana tenha tornado mais difícil detectar qualquer tipo efeito, observa o Dr. Sun.

Dietas tropicais são diferentes

Os defensores do óleo de coco apontam para estudos de populações indígenas em partes da Índia, Sri Lanka, Filipinas e Polinésia, cujas dietas incluem quantidades copiosas de coco. Mas suas dietas tradicionais também incluem mais peixes, frutas e legumes do que as dietas típicas americanas, então esta comparação não é válida, diz o professor da Faculdade de Medicina de Harvard, Dr. Bruce Bistrian, que é chefe de nutrição clínica no Beth Israel Deaconess Medical Center.
Algumas marcas de óleo de coco disponíveis no comércio são rotuladas como "virgem", significando que são feitas através da prensagem da polpa do coco fresca, separando então o óleo. Tem gosto e cheiro de coco, ao contrário do óleo de coco refinado, clarificado e desodorizado feito a partir da polpa de coco seca, usado em alguns alimentos processados e cosméticos. Óleo de coco virgem contém pequenas quantidades de compostos antioxidantes que podem ajudar a reduzir a inflamação, um processo prejudicial que se acredita que possa piorar a doença cardíaca. Mas até agora, a prova de qualquer benefício possível é limitada a pequenos estudos em ratos e camundongos, diz o Dr. Bistrian.

Gorduras insaturadas

Em contraste, há uma riqueza de dados mostrando que dietas ricas em gordura insaturada, especialmente azeite de oliva, possam diminuir o risco de doença cardiovascular, Dr. Sun aponta. A evidência vem não somente de muitos estudos observacionais (como aqueles no relatório acima mencionado de BMJ), mas também de um estudo clínico espanhol pioneiro, que demonstrou que pessoas que consumiram uma dieta mediterrânea rica em azeite de oliva extravirgem ou em oleaginosas (castanhas, amêndoas, nozes) tiveram menor risco de ataque cardíaco, acidente vascular cerebral e morte por doença cardíaca do que as pessoas que seguiram uma dieta com baixo teor de gordura.
Claro, não há necessidade de evitar completamente o óleo de coco, se você gosta do sabor. Alguns padeiros usam óleo de coco em vez de manteiga em produtos assados, e o leite de coco é um ingrediente chave na culinária tailandesa e alguns pratos indianos. Apenas considere estas iguarias como prazeres ocasionais, não como uma obrigação diária.

Fonte do original em inglês:

Em resumo, o óleo de coco não é um suplemento, muito menos um medicamento. É um alimento como qualquer outro. A opção pelo seu uso é exclusivamente culinária, já que não há evidências que opere qualquer milagre pela saúde humana.

Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Mestre em Endocrinologia
CREMERS 30.576 - RQE 22.991

domingo, 2 de abril de 2017

Doenças da tireoide e doação de sangue

Frequentemente alguém pergunta: “Tenho um problema na tireoide. Isso me impede de doar sangue?” Na grande maioria das vezes, pessoas com doenças tireoidianas compensadas podem sim doar sangue.
Abaixo, as recomendações para seleção de doadores de sangue da Organização Mundial da Saúde (OMS) quando houver histórico de doenças da glândula tireoide.



Podem doar sangue:
Indivíduos com doenças tireoidianas benignas que estejam compensadas como:
- Bócio assintomático.
- História de tireoidite viral ou subaguda.

Não poderão doar sangue momentaneamente:
Indivíduos:
- Com doença tireoidiana em investigação.
- Com hiper ou hipotireoidismo descompensados.
- Com câncer de tireoide em tratamento.

Não poderão doar sangue em nenhum momento:
Indivíduos com diagnóstico de Doença de Graves, já que os anticorpos do doador poderão causar hipertireoidismo no receptor.

No caso de dúvidas, consulte seu médico endocrinologista ou o banco de sangue.

Fonte:
Blood Donor Selection: Guidelines on Assessing Donor Suitability for Blood Donation. Geneva: World Health Organization; 2012.

Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Mestre em Endocrinologia
CREMERS 30.576 - RQE 22.991

domingo, 26 de março de 2017

Cuidados com os pés no paciente com diabetes mellitus

Problemas nos pés são frequentes em pacientes diabéticos. Felizmente, a maioria destas complicações pode ser prevenida através de monitorização cuidadosa. O paciente diabético deve ter como rotina diária o autocuidado dos pés.
O diabetes mellitus pode levar a uma série de complicações nos pés, entre elas: micoses, calos, joanetes e outras deformidades, além de feridas que podem ser superficiais ou tão profundas a ponto de alcançar os ossos.

As lesões encontradas nos pés dos pacientes diabéticos têm como causa a má circulação sanguínea e a lesão dos nervos, ambas causadas pelos níveis elevados de glicose. O fluxo sanguíneo diminuído aliado à diminuição da sensibilidade predispõe a feridas de difícil cicatrização. Estima-se que 5 de cada 100 pacientes diabéticos precisam ser amputados devido a problemas nos pés.
O paciente diabético deve ter seus pés examinados por um endocrinologista pelo menos uma vez ao ano. Durante o exame, o médico avalia a circulação, a pele, os nervos e procura por deformidades. Para isto palpa os pulsos e testa a sensibilidade dos pés através de instrumentos específicos como o monofilamento e o diapasão. Qualquer alteração encontrada deve ser tratada e/ou monitorada para que se evitem lesões mais graves.
Além do exame médico, são medidas importantes no cuidado dos pés do paciente diabético:
– evitar o cigarro, já que o fumo prejudica a circulação;
– ter cuidado ao cortar as unhas, evitando retirar as cutículas ou deixa-las encravadas;
– lavar, secar e hidratar os pés diariamente. Durante este processo procurar por abrasões, áreas avermelhadas, bolhas ou qualquer tipo de ferida, principalmente na planta e entre os dedos;
– evitar andar descalço ou usar calçados apertados e desconfortáveis.
Respeitadas estas medidas, os problemas nos pés dificilmente surgirão. Contudo, caso se perceba qualquer lesão, o médico deverá ser prontamente consultado para que o tratamento seja rapidamente instituído e se evite assim a temida amputação.

Fonte: UpToDate OnLine

Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Mestre em Endocrinologia
CREMERS 30.576 - RQE 22.991

domingo, 19 de março de 2017

As mãos do paciente com diabetes mellitus

É de amplo conhecimento que o diabetes mellitus pode causar problemas nos pés. Até pela gravidade do problema, com risco de amputação dos membros inferiores, os pés do paciente com diabetes sempre devem ser lembrados. No entanto, por ser uma doença sistêmica, o diabetes pode acometer outras estruturas do aparelho locomotor, como as mãos.
Estima-se que metade dos pacientes com diabetes tenham algum tipo de problema nas mãos. Além disso, muitas destas pessoas estão em idade avançada, e o comprometimento das mãos pela doença pode trazer grandes limitações às atividades diárias. Na presença de dor ou diminuição da mobilidade, tarefas simples como testar a glicemia capilar, preparar a dose da insulina, escovar os dentes ou abotoar uma camisa se tornam extremamente complicadas.



A seguir, uma lista das principais doenças das mãos que o paciente diabético pode apresentar:

1 - Síndrome do túnel do carpo: a síndrome do túnel do carpo é causada pela compressão do nervo mediano entre o ligamento carpal e as outras estruturas que compõem o túnel do carpo. O encarceramento do nervo dentro do túnel do carpo acontece devido a alterações do tecido conjuntivo que são maiores quanto maior for o tempo que o paciente convive com diabetes. Talvez seja a complicação mais comum nas mãos do paciente diabético, acometendo um em cada cinco indivíduos. Dor e perda de força são sintomas que levantam a suspeita.

2 - Limitação da mobilidade articular: alterações no colágeno que compõe os ligamentos induzidas pelo diabetes são responsáveis por rigidez não dolorosa das articulações das mãos. Diminuição da força de preensão, inchaço e dificuldades com movimentos finos são sintomas frequentes. Dependendo da população de pacientes diabéticos avaliada, a prevalência desta complicação vai de 8 a 58 porcento.

3 - Contratura de Dupuytren: caracteriza-se por contratura da fáscia palmar, causando nodulações na palma da mãos e deformidade em flexão dos dedos. Acomete de 16 a 42 porcento dos pacientes com diabetes, especialmente os que convivem há mais tempo com a doença.

Contratura de Dupuytren.
4 - Tenossinovite flexora: caracteriza-se por nodulações e espessamentos do tendões e bainhas que fazem a flexão dos dedos, podendo literalmente "bloquear" um ou outro dedo na posição de gatilho. Até 20 porcento dos pacientes diabéticos apresentam este tipo de complicação, que costuma acometer o polegar, dedo médio ou dedo anular.

5 - Esclerodactilia diabética: por vezes confundida com esclerodermia, a esclerodactilia diabética causa espessamento da pele dos dedos, que ficam com aparência de salsichas. Esta complicação não causa dor, mas prejudica a mobilidade dos dedos.

Esclerodactilia diabética.

6 - Distrofia simpática reflexa: é uma complicação pouco frequente, caracterizada por dor grave ou sensação de queimação da mão, associada a inchaço, alterações no turgor da pele e sinais e sintomas de comprometimento vascular. Quando a mão é acometida, pode  haver dor e limitação no ombro do mesmo lado.

Como podemos perceber, as mãos do paciente diabético, especialmente os que convivem com a doença por muito tempo, podem apresentar diversas enfermidades. Logo, no caso de dor ou dificuldades motoras, o médico endocrinologista deve ser prontamente visitado para que o diagnóstico e o tratamento corretos possam ser providenciados.

Referência:
1- Musculoskeletal complications in diabetes mellitus. UpToDate OnLine.

Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Mestre em Endocrinologia
CREMERS 30.576 - RQE 22.991

quinta-feira, 2 de março de 2017

Gordura interesterificada: a “nova” gordura das margarinas é segura?

No início deste século, evidências científicas incriminando a gordura trans foram se acumulando. A gordura trans é obtida através de um processo industrial chamado de hidrogenação. Os óleos vegetais são ricos em ácidos graxos insaturados. Isto quer dizer que dentro da cadeia carbônica destes ácidos graxos existem várias ligações duplas entre os carbonos (figura 1). Durante a hidrogenação são adicionadas moléculas de hidrogênio a cadeia carbônica do ácido graxo para transformar as ligações duplas em ligações simples (figura 2). Um efeito adverso desse processo é a hidrogenação parcial de algumas das duplas ligações e a “torção” da molécula, formando a famigerada gordura trans.
FIGURA 1. Exemplos de gordura insaturada.

FIGURA 2. Processo de hidrogenação.

Mas por que a indústria gostava tanto de usar a gordura hidrogenada? De uma maneira geral, quanto mais insaturada for uma gordura, maior a probabilidade dela ser líquida. E a indústria alimentícia prefere utilizar gorduras sólidas nos seus produtos, pois além de serem mais estáveis nas altas temperaturas atingidas durante a fritura, garantem consistência mais agradável e maior prazo de validade aos alimentos.
Com cada vez mais órgãos governamentais e entidades de classe se posicionando contra o uso da gordura trans, a indústria alimentícia começou a migrar para um “novo” método para solidificar os óleos vegetais: a interesterificação.
A interesterificação é usada desde a década de 1940. Na natureza, as gorduras se apresentam em “trios” de ácidos graxos ligados a uma molécula de glicerol: são os triglicerídeos (figura 3). Dependendo de qual ácido graxo está na posição 1, 2 ou 3 da molécula do triglicerídeo, suas propriedades físico-químicas podem ser diferentes. Na forma mais comum de interesterificação utilizada pela indústria alimentícia atualmente, conhecida como método enzimático, os ácidos graxos são seletivamente ou randomicamente trocados de posição na molécula do triglicerídeo para que um óleo líquido passe a ser sólido sem o inconveniente da formação da gordura trans. Mas essa manipulação química mantém a gordura própria para consumo? É algo saudável? Esta é uma questão de resposta um pouco complexa…

FIGURA 3. Molécula de triglicerídeos. À esquerda podemos identificar os 3 carbonos da molécula de glicerol.
Primeiramente, mesmo países que historicamente conseguem ter informação epidemiológica apropriada como os Estados Unidos têm dificuldade em calcular o consumo de gordura interesterificada de sua população. Um dos motivos é a rotulagem de muitos produtos ser pouco clara quanto ao tipo de gordura utilizada na sua fabricação. Além disso, no caso da gordura interesterificada, também é importante conhecer quais “gorduras bases” foram usadas na sua fabricação, bem como a descrição do processo, já que a simples descrição da proporção de gordura saturada e insaturada ou a origem ser vegetal ou animal não permite estimar o comportamento biológico dentro do organismo. De qualquer forma, estima-se que o consumo de gordura interesterificada fique entre 1,9 e 4,8% do total energético e suas principais fontes provavelmente são: batatinhas fritas e outros chips, bolachas e pães industrializados, pipocas, margarinas, congelados prontos para fritar (nuggets e empanados, por exemplo), maionese e sorvetes.
Como os dados de consumo populacional são apenas estimados, até o momento grande parte do que se sabe sobre o impacto do consumo das gorduras interesterificadas vem de estudos pequenos, muitos feitos em animais e de curta duração. Além disso, como a gordura interesterificada compreende diversas combinações de ácidos graxos dentro da molécula de triglicerídeo, os resultados destes estudos são extremamente heterogêneos. Outra falha importante destes estudos é não conseguir reproduzir as situações reais de consumo. Isto é, ninguém come gordura interesterificada pura e em níveis até 4 vezes acima do habitual. Mas é assim que alguns estudos tentam avaliar o impacto da gordura interesterificada na saúde…
De qualquer forma, alguns pontos relevantes já foram identificados. Por exemplo, o ácido graxo de está ligado na posição 2 da molécula de triglicerídeo parece ser importante, já que ele pode ser absorvido mais facilmente pelo organismo. Além disso, o comprimento das cadeias dos ácidos graxos que ficam nas posições 1 e 3, nas pontas da molécula, também parece ser importante, já que os saturados de cadeia longa podem ser pior absorvidos quando comparados aos saturados de cadeia média. Dependendo de qual ácido graxo é preferencialmente absorvido a resposta do organismo é diferente com diferentes níveis de triglicerídeos, colesterol, marcadores inflamatórios e mesmo de glicose e de insulina.
Em resumo, até o momento ainda não sabemos se a “substituta da gordura trans” é mais saudável que ela. Para que esta pergunta seja corretamente respondida, além de mais alguns anos de pesquisa, as regras de rotulagem dos produtos alimentícios industrializados precisaram ser revistas. Neste tipo de situação onde não sabemos o real efeito de algo, o princípio da prudência se impõe. Logo, além de dar preferência às fontes naturais saudáveis de gordura (azeite de oliva, por exemplo), o consumidor tem direito de ser bem informado para decidir o que é melhor para si.

Referência:

1- Mensink RP, Sanders TA, Baer DJ, Hayes KC, Howles PN, Marangoni A. The Increasing Use of Interesterified Lipids in the Food Supply and Their Effects on Health Parameters. Adv Nutr. 2016 Jul 15;7(4):719-29.

Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Mestre em Endocrinologia
CREMERS 30.576 - RQE 22.991

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Comer arroz ajuda a tratar o diabetes?

O Instituto Rio Grandense do Arroz (IRGA), em conjunto com a Farsul, Federarroz, Senaer e Sebrae, desenvolveu o Programa de Valorização do Arroz (Provarroz). O principal objetivo deste programa é “levar informações sobre os potenciais benefícios do arroz à saúde”. No entanto, a forma que estas informações vêm sendo veiculadas não é apropriada, pois pode gerar interpretação equivocada por parte da população.
No caso do diabetes mellitus, o Provarroz produziu material impresso para ser disponibilizado dentro de restaurantes com o seguinte texto: “Arroz é saúde. Auxilia no tratamento da diabetes” (foto abaixo). Nenhum alimento isoladamente é capaz de tratar o diabetes, assim como, dentro de um padrão alimentar equilibrado, nenhum alimento é proibido.



No caso específico do arroz diversos fatores parecem influir no seu índice glicêmico, isto é, na velocidade com que o carboidrato é absorvido no intestino fazendo a glicose subir no sangue. O arroz branco, comido puro, em grande quantidade e preparado da forma convencional (cozido em água) tem alto índice glicêmico. Uma revisão sistemática publicada na revista médica BMJ no ano de 2012, avaliou mais de 300 mil indivíduos com seguimento de até 22 anos. Neste estudo, populações asiáticas, com padrão de consumo de arroz parecido com o descrito no início deste parágrafo, apresentaram risco maior de desenvolver diabetes com o passar do tempo (1). Outro estudo, publicado em 2013 no European Journal of Epidemiology chegou a conclusões parecidas (2). Logo, a evidência científica disponível até o momento é categórica em afirmar que o alto consumo arroz branco polido, tipo com maior apreço pelo consumidor brasileiro, na realidade aumenta o risco de diabetes.
Isso não quer dizer que o consumo de arroz deva ser evitado pela população geral ou mesmo por pessoas com diagnóstico de diabetes. Variedades com maior teor de fibras e maior quantidade de amido resistente (integral, preto e vermelho), quando consumidos com moderação, dentro de um padrão alimentar equilibrado e associado a atividades físicas regulares, podem sim ajudar a manter os níveis glicêmicos mais estáveis no decorrer do tempo. Perceba, aqui temos consumo do arroz dentro de um contexto maior de hábitos saudáveis, não como um “suplemento” ou “agente milagroso” para tratar uma doença.
A informação ao ser transmitida para o público geral, além de ser de fácil compreensão e interpretação, deve ser completa. Logo, o material de divulgação do Provarroz merece ser melhor elaborado para que consiga atingir seu real objetivo de “promoção de saúde”.

Referências:
1 - Hu EA, Pan A, Malik V, Sun Q. White rice consumption and risk of type 2 diabetes: meta-analysis and systematic review. BMJ. 2012 Mar 15;344:e1454.
2 - Aune D, Norat T, Romundstad P, Vatten LJ. Whole grain and refined grain consumption and the risk of type 2 diabetes: a systematic review and dose-response meta-analysis of cohort studies. Eur J Epidemiol. 2013 Nov;28(11):845-58.

Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Mestre em Endocrinologia
CREMERS 30.576 - RQE 22.991